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Usando podcasts para melhorar a aprendizagem de inglês

Conheça o projeto “rádio Rec Tec” do curso de Letras – Inglês da UEPA, conduzido pela professora Erika, que trabalha com podcasts para melhorar a aprendizagem de língua inglesa.

Basta um breve olhar ao redor para observamos a influência tecnológica de nossos dias em várias esferas de conhecimento. No campo de ensino e aprendizagem de línguas estrangeiras não poderia ser diferente.

Desde o fonógrafo de Thomas Edson até os aplicativos atuais de celulares e tablets, há uma vastidão de possibilidades pedagógicas inspiradoras e, cada vez mais, tem sido possível explorar novas ferramentas tecnológicas – compreendendo que essas ferramentas estão a favor do professor, mas que, em hipótese em alguma, devem substituí-lo. Além disso, é preciso estar atento às demandas dos alunos.

Foi pensando dessa forma que eu e os professores em formação do curso de Letras – Língua Inglesa da Universidade do Estado do Pará (UEPA) desenvolvemos o projeto “Rádio Rec Tec”, cuja proposta principal é promover a prática da oralidade e fomentar a competência interacional dos alunos.

Fazemos isso a partir do trabalho em grupo, da escrita colaborativa e do uso da tecnologia de uma forma crítica, criando podcasts que possam ser interessantes ao contexto da comunidade onde irão atuar e aos colegas da área que poderão vir a utilizar esses materiais futuramente.

O projeto Rádio Rec Tec

Primeira etapa

A primeira edição do projeto disciplinar ocorreu em 2014, como parte da avaliação da disciplina “Recursos Tecnológicos no Ensino de Língua Inglesa”, ministrada por mim. Naquele ano, também fui responsável pela disciplina “Inglês II” no curso, trabalhando com reading e writing, considerando aspectos de organização textual, escrita como processo (FLOWER; HAYES, 1981 apud HYLAND, 2003; BROWN, 2001; NUNAN, 1999), escrita colaborativa (HYLAND, 2003; MASSI, 2001) e abordagem de gêneros textuais (HEMAIS & BIASI-RODRIGUES, 2005; MARCUSCHI, 2006 apud DIAS, 2011). Somado a isso, os alunos já haviam estudado “Inglês I” e adentrado o campo da produção oral, da língua em uso, de aspectos pragmáticos do discurso oral e de materiais didáticos que priorizassem a autenticidade desse discurso.

Encontrei ali, no cruzamento das disciplinas, a possibilidade de colocar em prática o conhecimento dos discentes, de um jeito lúdico e atrativo, mas com total embasamento teórico necessário à sua formação acadêmica e à sua atuação como profissional do campo de EFL.

Resumidamente, a primeira fase do projeto requer que os discentes entendam o gênero script de rádio e também as características da fala improvisada desse meio de comunicação. Isto é, me chamou a atenção mostrar a eles aquilo que poderia ser considerado “improviso”, mas que envolvia, sem sombra de dúvidas, um modo de organização único, o qual prioriza uma linguagem clara, simples, mas nem por isso desordenada ou sem conteúdos de qualidade.

Ensaios antes das gravações

Observar os componentes da linguagem utilizada nos programas de rádio, a meu ver, poderia ser relevante para que os alunos compreendessem melhor o que Koch (2002) afirma sobre o texto falado: que este “não é absolutamente caótico, desestruturado, rudimentar. Ao contrário, ele tem uma estruturação que lhe é própria, ditada pelas circunstâncias sociocognitivas de sua produção […]” (KOCH, 2002, p. 81).

Esses elementos, agregados, por exemplo, às críticas de Oliveira (2014) aos materiais didáticos em língua inglesa, que não priorizam um contexto autêntico de comunicação e que não fornecem informações sobre o uso, mas apenas sobre as regras gramaticais da língua-alvo, coadunam com o que Goh e Burns (2012) argumentam a respeito dos tipos de diálogos encontrados em muitos livros de língua inglesa: pecam por sua artificialidade ao não trabalhar os traços distintivos da língua falada.

Segunda etapa

Após a primeira etapa de familiarização com o script de rádio, passamos então à fase de revisão bibliográfica – a partir de leituras sobre competência pragmática, interacional, sociolinguística etc. e também sobre como a habilidade de speaking tem sido ensinada nas aulas de EFL.

Em um outro momento, a turma se divide em grupos e peço a eles que apresentem suas ideias: qual o nome do podcast? Qual o propósito? Qual função cada aluno vai desempenhar?

Sempre os deixo livres para decidir sobre o que falar, desde que respeitem a necessidade de se utilizar entonação e pronúncia apropriadas, com vocabulário acessível, para que os ouvintes possam se identificar com o que está sendo transmitido ou, simplesmente, possam compreender de modo objetivo e claro o que está sendo falado.

O trabalho em conjunto é essencial para que tudo funcione bem e abrange desde o compartilhamento de ideias, de escolhas temáticas, de seleção de BG (sons de background – trilhas para ambientação que colaboram com o aspecto multimodal do projeto) até a revisão final dos roteiros.

Creio que seja de extrema relevância conscientizar os alunos da necessidade de se respeitar os limites de seus colegas e, sendo assim, quaisquer desvios gramaticais ou de pronúncia não deveriam ser expostos de modo a diminuir ou ridicularizar os participantes do projeto.

Trabalhar produtiva e criticamente não significa trabalhar sem solidariedade. Essa é uma das inúmeras vantagens observadas ao longo das edições da “Rádio Rec Tec”, já que o trabalho em conjunto permite que os discentes desenvolvam estratégias de apoio mútuo, confirmando a importância que cada um desempenha nas tarefas propostas.

Dia de gravação dos podcasts – “Rádio Rec Tec” edição 2015

Terceira etapa

Preferi organizar os ensaios em sala de aula justamente para monitorar o processo de desenvoltura dos discentes, enfatizando que fatores afetivos como ansiedade e timidez são comuns no exercício da língua-alvo, mas que, de modo algum, deveriam ser tomados como bloqueios definitivos – afinal, a aprendizagem é um processo.

Desse modo, os grupos devem escrever os seus scripts e ensaiar suas produções junto comigo, nas aulas dedicadas ao projeto. A edição e revisão dos textos, bem como a correção de desvios de pronúncia ou o exercício intenso de aspectos pragmáticos da língua são trabalhados de forma totalmente colaborativa.

Quarta etapa

As gravações, em sua maioria, foram realizadas em sala de aula, com meus próprios equipamentos de homestudio (a saber: um microfone condensador, um computador Desktop com o software Cubase instalado, uma interface de áudio e uma caixa de som para retorno). Entretanto, considerando o tempo que se levava para gravar e regravar os podcasts, preferi solicitar aos alunos que utilizassem seus próprios celulares a partir da edição de 2016. Assim, teriam como editar e revisar tudo com mais precisão e calma.

Parte dos equipamentos utilizados nas gravações dos podcasts

Alguns dos podcasts produzidos entre os anos de 2014 e 2017 podem ser acessados no link do soundcloud: https://soundcloud.com/projetoradiorectec. Os programas, em geral, consideram tópicos como esportes, dicas de leitura, entretenimento (séries, filmes, música etc.) e inclui também comerciais produzidos pelos próprios alunos, no intuito de trazer mais autenticidade para a programação da “Rádio Rec Tec”.

Na edição de 2017, tivemos também a gravação de uma “rádio novela”, intitulada “Age of Youth”, resgatando esse gênero folhetinesco sonoro com certas referências da atualidade (no caso, com BG da música de abertura da série How I met Your Mother, produzida pela emissora CBS).

A edição de 2015 do projeto resultou em um artigo escrito por mim (Erika Silva) e por um dos alunos participantes (André Souza), intitulado “A criação de programas de rádio em aulas de EFL” e publicado na edição n° 24 da Revista Contexturas/APLIESP (ISSN: 0104-7485). Outros discentes também publicaram relatos de experiência com base no projeto. Esses artigos podem ser acessados nos seguintes links:

Resultados alcançados com o projeto

A turma ganha, por vivenciar algo inovador, funcional e relevante para a sua formação, combinando a tecnologia com o ensino de EFL, de forma genuinamente cooperativa.

Os alunos ganham, por se interessarem em escrever sobre a experiência, ampliando seu conhecimento e solidificando sua produção acadêmica, tão necessária para aqueles que almejam construir um futuro no âmbito da pesquisa científica.

Você, professor, ganha, com todos esses feitos desencadeados pelas aulas de Recursos Tecnológicos no Ensino de Língua Inglesa.

E, finalmente, ganham os futuros alunos desses professores em formação, pois serão agraciados com profissionais criativos, de ideias arrojadas, cientes de que a tecnologia educacional não representa um fim em si mesma, mas considera, antes de tudo, as necessidades e o contexto dos próprios aprendentes.