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Monitoria escolar: tudo o que você precisa saber, por uma professora

Conheça o guia completo escrito pela professora Surama Patrícia, mostrando como você pode por em prática um projeto de monitoria escolar para melhorar o aprendizado de seus alunos!

A cultura da cooperação

Como professora da E.E. Prof. Virgílio Antunes (Secretaria de Educação do Estado de São Paulo) há 17 anos (sendo que os últimos 5 anos aderi ao Programa de Ensino Integral), acompanhei vários momentos vividos pela equipe escolar e seus educandos, alguns positivos e outros mais difíceis, especialmente no que tange ao processo do ensinar e do aprender.

Assim, no que se refere a minha disciplina – Língua Portuguesa – minha expectativa sempre foi, é e sempre será estimular a aprendizagem de forma significativa dos meus alunos, formando leitores e escritores competentes, críticos e autônomos, que consigam lidar com as exigências do texto escrito de maneira voluntária, consciente e intencional.

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Foto: Google Maps / E.E. Prof. Virgílio Antunes

Assim sendo, decidi propor o projeto de monitoria: parceiros do saber, visando construir uma cultura de cooperação dentro da sala de aula, por meio de mudanças de atitudes e conscientização da importância do trabalho em grupo na construção do conhecimento.

Além de aprender a conviver com as diferenças, gerenciando conflitos, melhorando as relações humanas e oportunizando ficar atento aos seus sucessos e fracassos, o aluno-monitor não é apenas um aluno, ele faz a ponte entre todas as estratégias utilizadas por mim e o estudante.

São trabalhados de maneira compartilhada, conteúdos conceituais, atitudinais e procedimentais, desenvolvendo assim nos aprendentes, responsabilidades consigo e com o outro e principalmente aprendendo a aprender e a conviver.

Professor como mediador, aluno como protagonista

A educação escolar, em termos gerais, já vivenciou muitas mudanças que, compreensivelmente, alteraram não só a configuração da relação professor-aluno, pois de acordo com Moran:

As mudanças que estão acontecendo são de tal magnitude que implicam reinventar a educação em todos os níveis, de todas as formas, pois elas são tais que afetam tudo e todos: gestores, professores, alunos, empresas, sociedades, metodologias, tecnologias, espaço e tempo (MORAN, p. 10).

Hoje, o papel do professor deixou de ser considerado o detentor do conhecimento, aquele cujo a missão é transferir o saber, acumulado ao longo dos anos, para um aluno passivo, uma “tábula rasa”, cuja mente precisa ser “preenchida” pelos ensinamentos do mestre.

De acordo com Coll (2006, p. 40), o professor, ao entrar numa sala de aula, carrega consigo certa visão de mundo e imagem de si mesmo, que influenciam seu trabalho e sua relação com os alunos.

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Da mesma forma, os alunos constroem representações sobre seus professores. Assim, o que se vivencia na escola hoje é a tentativa de desconstruir imagens: a do professor como detentor e fonte única do saber, e a do aluno como ser passivo à espera da “transmissão do conhecimento”.

Muitos vezes, no entanto, há uma tendência por parte dos professores em agir com base em experiências anteriores, de quando ainda eram alunos – “eu ensino do jeito que aprendi” – e muitos comportamentos pedagógicos que servem como modelo é o daquele professor que paira como a figura central no processo ensino-aprendizagem, o “detentor do saber”, que ainda considera possível haver ensino sem aprendizagem, que justifica o fracasso do aluno afirmando “eu ensinei, ele é que não aprendeu”.

Retomando as noções de professor mediador e aluno protagonista, é possível afirmar que elas remetem a uma concepção construtivista que estabelece a aprendizagem como uma construção pessoal que o aluno realiza com a ajuda de outras pessoas. Como destaca Zabala (2006, p. 43):

Esse processo necessita da contribuição da pessoa que aprende, implicando o interesse, disponibilidade, conhecimentos prévios e experiência; implica também a figura do outro que auxilia na resolução do conflito entre os novos saberes o que já se sabia, tendo em vista a realização autônoma da atividade de aprender a aprender.

Como o termo sugere, o aluno protagonista é ator no próprio processo de construção do conhecimento, ele troca a passividade pela ação. O conhecimento não é um “objeto” fora dele, que é dado pelo professor, é algo a ser construído na e pela interação com seus pares e com o professor.

O aluno, nessa perspectiva, se coloca também como responsável pelo seu conhecimento, pois se por um lado ele precisa de alguém mais experiente que o auxilie, por outro lado, se não houver, da parte do aprendiz, interesse, ação, de nada valerá o auxílio.

Ensino Híbrido
Alunos aprendendo literatura com ensino híbrido (Foto: Vanessa Bolina / Objetivo Sorocaba)

Acerca desse tema, Delors (1998, p. 15) afirma que são quatro os pilares da educação: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a ser. São essas as aprendizagens que devem permear o processo do aluno protagonista, e não mais conteúdos estanques, relacionados apenas a conhecimentos enciclopédicos.

O professor mediador, sob essa perspectiva, passa a ser aquele que auxiliará o aluno durante todo o processo, instigando-o, a partir de conhecimentos já consolidados, a construir outros para os quais o aluno necessita de referências e orientações. Não cabe, então, a postura do “dono do conhecimento”, das respostas prontas e formatadas, do silenciamento de dúvidas e opiniões.

O foco não é classificar em certo e errado, mas propiciar reflexões, chamar o aluno a assumir o seu papel enquanto aprendiz.

Perrenoud (2000, p. 15) definiu as competências que devem subjazer ao trabalho do professor e todas elas convergem no sentido de ratificar o professor como mediador do processo de ensino-aprendizagem.

As competências apontadas por Perrenoud (2000, pp. 25-169) são:

  1. Organizar e dirigir situações de aprendizagem;
  2. Administrar a progressão das aprendizagens;
  3. Conceber e fazer evoluir os dispositivos de diferenciação;
  4. Envolver os alunos em sua aprendizagem e em seu trabalho;
  5. Trabalhar em equipe;
  6. Participar da administração da escola;
  7. Informar e envolver os pais;
  8. Utilizar novas tecnologias;
  9. Enfrentar os deveres e dilemas éticos da profissão;
  10. Administrar a sua própria formação continuada.

Duas das competências elencadas são bastante explícitas quanto ao papel do professor como mediador: administrar a progressão das aprendizagens e envolver os alunos em sua aprendizagem e em seu trabalho.

Essas competências requerem, por parte do professor, além de um profundo conhecimento acerca de seus alunos, a quebra do distanciamento que muitas vezes marca a relação pedagógica, pois o docente precisa suscitar no aluno o desejo de aprender e isso só se consegue quando o próprio professor se coloca na condição de aprendiz também, de alguém que não só ensina, mas que aprende muito na interação com seus alunos.

Monitores a obra!

Agora que entendemos o que está por trás da monitoria e a importância do protagonismo do aluno para seu processo de aprendizado, é hora vermos como estruturar monitoria nas escolas!

#1 Elabore um projeto de monitoria

Como todo bom primeiro passo, a elaboração do planejamento das atividades de monitoria é essencial. Pensar em quantas reuniões serão feitas com os monitores, como serão escolhidos os monitores, quais temas serão estudados, o que vai ser avaliado e o modo de avaliação será algo que definirá se a monitoria fará diferença na sua aula, ou será mais uma dor de cabeça.

Recomendo, pela minha experiência, uma reunião por semana com os monitores para entender o que está funcionando e o que não está e também para conversar sobre o que vai ser estudado na semana.

#2 Selecione os monitores

Para escolher os alunos que serão monitores dos grupos é preciso realizar uma atividade diagnóstica. Para isso, é possível realizar uma conversa com os alunos abertamente, ou fazer atividades em grupo, sem contar o objetivo e depois conversar separadamente com os alunos que apresentaram habilidades e competências de liderar e orientar os colegas numa aprendizagem compartilhada.

#3 Apresente o projeto de monitoria para os alunos

O terceiro passo é apresentar aos alunos o projeto e divulgar os monitores selecionados. Ao contrário de trabalhos em grupo, deixe que os monitores e monitorados se escolham por nível de afinidade e identidade. Lembrando que, o professor deve intervir se perceber algum grupo possivelmente improdutivo.

Os grupos serão formados com 2 a 4 componentes, com um monitor em cada grupo, sendo que é legal fazer uma reunião semanal com os monitores enfatizando valor dele no grupo e do grupo como um todo.

#4 Oriente os estudos, mas não esqueça do fechamento

Monitores a obra! Com monitores escolhidos e grupos formados é hora de estudar textos e temas, trabalhando os valores de cada um como cidadão, os conteúdos do bimestre e as habilidades da série em curso.

A partir da conversa com os monitores, oriente os grupos de estudo para que todos, ou a maioria, cheguem preparados para a aula.

Durante a aula, é interessante fazer um fechamento daquilo que foi estudado na semana, trazendo aulas expositivas/dialogadas para explanação dos conteúdos que podem ser feitas pelo próprio professor ou pelos alunos monitores, dependendo do que foi acordado na reunião semanal.

Ou, atividades em grupo e/ou com toda sala. Trazendo a contribuição de todos ou somente dos monitores, promovendo conversas ou debates sobre os temas da aula, com o objetivo de compartilhar o que foi estudado e aumentar o aprendizado coletivo. Lembrando que, independente da atividade que for feita, é sempre importante a mediação do professor para garantir a qualidade.

#5 Avalie os resultados

O quinto passo está relacionado com a avaliação desse método. A partir de entregas, como atividades, ou trabalhos, é possível avaliar o aprendizado coletivo e retomar os conteúdos/habilidades que apresentaram maior dificuldade.

Com uma avaliação em grupo/individual, através da autoavaliação (ao final de cada situação de aprendizagem) e da heteroavaliação é possível criar indicadores extras, mas não menos importantes, que impactam diretamente no aprendizado.

Por exemplo: engajamento do aluno no grupo; trabalho com as diferenças; desenvolvimento de autoestima e autoconfiança; aumento da interação entre todos envolvidos no processo;

Todos esses indicadores refletem, fundamentalmente, na melhoria nas avaliações internas e externas, resultado da efetiva aprendizagem dos alunos e do professor.

Professores que fazem a diferença!

A Prática Educacional de hoje foi inteiramente produzida pela Surama Patrícia, professora da rede das Práticas!

Professora-Surama-Patricia

Surama é formada em Letras e Pedagogia e é professora efetiva da Secretaria de Educação de São Paulo. Já trabalhou em escolas particulares com apostilado (Sistemas Anglo, COC e Pitágoras), mas seu amor por trabalhar com alunos “invisíveis” e de baixa renda a levou para o ensino público numa jornada de mais de 20 anos como educadora.

Referências

  1. Secretaria da Educação fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: Língua Portuguesa
  2. César Coll e outros. O construtivismo na sala de aula
  3. Educação: um tesouro a descobrir
  4. José Manuel. A educação que desejamos: novos desafios e como chegar lá.
  5. Philippe Perrenoud. 10 novas competências para ensinar.
  6. Antoni Zabala. A prática educativa: como ensinar?
  7. Antonio Costa. Protagonismo Juvenil: Adolescência, educação e participação democrática
  8. Jacques Delors. A Educação para o Sec. XXI – questões e perspectivas.
  9. Secretaria da Educação. Currículo do estado de São Paulo.
  10. Secretaria da Educação. Plano de Ação das Escolas de Ensino Integral.
Práticas Educacionais