Educação inclusiva: como incluir alunos com autismo

Conheça o guia prático escrito pela professora Joelma Castilho, mostrando como promover ao aluno com autismo um aprendizado pedagógico significativo, mesmo sem muitos recursos!

Todos conhecem, mas poucos sabem lidar

A realidade escolar hoje garante a todos acesso à educação. Como professor, você já deve ter se deparado, em sua sala de aula ou escola, com algum aluno com deficiência, em especial o Transtorno do Espectro Autista (TEA).

Segundo dados da DCC (EUA) a cada 36 crianças, uma tem TEA, ou seja, praticamente uma por sala de aula e levando em consideração tais estatísticas há necessidade de repensar as práticas pedagógicas aplicadas.

Fishbowl em sala de aula
Foto: Daniel Guimarães/A2IMG

Sabe-se que na prática é muito difícil de garantir uma educação inclusiva efetiva, digna tanto para o professor quanto ao aluno, seja por falta de recursos materiais ou humanos.

Ensinar um aluno com autismo sem um profissional/professor de apoio em sala de aula é desgastante ao professor e desumano ao aluno, uma vez que o aluno com autismo, assim como qualquer outra deficiência necessita de uma intervenção pedagógica individualizada.

A prática de hoje vai te mostrar como você pode, mesmo sem muitos recursos, promover ao aluno com autismo um aprendizado pedagógico significativo. E para que isso aconteça é necessário uma educação baseada em evidências científicas.

Análise do comportamento aplicada (ABA)

Nos últimos anos a Terapia cognitivo-comportamental tem apresentado crescimento e vem despertando o interesse de diversos profissionais, uma vez que é o método com maior evidência científica para o TEA.

Desde de que iniciei minha vida profissional tenho trabalhado com alunos com autismo, e assim, adotei para minhas práticas pedagógicas, uma educação baseada em evidências científicas.

E ao buscar respaldo científico conheci o Programa em ritmo auto estabelecido “Ajude-nos a aprender” (“Help Us Learn Self-Paced Training Program for ABAO programa foi planejado para atender as necessidades de dois diferentes grupos de pessoas: as famílias ou professores que não têm acesso a um consultor ou psicólogo especializados em ABA, não pode pagar pelo serviço ou não quer esperar para começar o trabalho; famílias e professores que estão dirigindo um programa de ABA e precisam de um meio eficaz e barato para treinar novos professores de ABA. ( LEAR; p. 11; 2004)

O Programa tem como objetivo tornar a metodologia de ensino da Análise do Comportamento Aplicada (ABA – abreviação de Applied Behavioral Analysis) mais fácil de aprender e de usar, tornando-a mais acessível. Além disso foi escrito “por uma mãe para pais; professores, terapeutas, assistentes educacionais, provedores de serviços, tias, tios, acompanhantes, monitores de acampamento, babás, avós e qualquer pessoa que tenha a oportunidade de fazer diferença na vida de uma criança com autismo” (LEAR; P. 1-1; 2004).

A Análise do Comportamento Aplicada (ABA) é:

“um termo advindo do campo científico do Behaviorismo, que observa, analisa e explica a associação entre o ambiente, o comportamento humano e a aprendizagem. Uma vez que um comportamento é analisado, um plano de ação pode ser implementado para modificar aquele comportamento. O Behaviorismo concentra-se na análise objetiva do comportamento observável e mensurável.“ (Lear; P. 1-4; 2004).

Ivan Pavlov, John B. Watson, Edward Thorndike e B.F. Skinner são considerados os “pais do Behaviorismo”, são os pioneiros que pesquisaram e descobriram seus princípios científicos.

Se os professores forem bem treinados, as crianças serão bem ensinadas e os objetivos estabelecidos serão atingidos efetivamente.

Apoio pedagógico individualizado

monitoria-sala-de-aula

O trabalho realizado para alunos com autismo deve ser realizado de modo individualizado. Para atingir um bom desempenho, ter o professor de apoio em sala de aula para a realização da intervenção individualiza é imprescindível.

Levando em consideração que há uma dificuldade corriqueira em adaptar currículo, que  muitas vezes é entendida como “infantilização” de conteúdos e atividades, a adaptação curricular nessa prática foi realizada de maneira diferente do que estamos acostumados a ver e fazer. Traçamos metas com base nas informações, perfil e comportamento de cada aluno.

1º passo – Organizar a adaptação curricular

Levando em conta que os alunos não estavam alfabetizados e já haviam passado ciclo de alfabetização, meu primeiro objetivo foi organizar e adaptar o currículo.

No 1º semestre o intuito foi alfabetizar, em Língua Portuguesa (ler, escrever e interpretar), e em Matemática (operações básicas com e sem recursos, situações problemas e cotidianas, etc); as demais disciplinas eram cobradas oralmente.

No 2º semestre o objetivo curricular era colocar o aluno em dia com o conteúdo do ano o qual eles estavam matriculados.

Você pode fazer a organização e adaptação curricular verificando a sua realidade, a realidade do aluno e de acordo com o ano escolar, estabelecendo metas semanais, bimestrais e alterando sempre que necessário.

Os “insights” são importantes para compreensão e solução de possíveis problemas que surgirão.

2º passo – Analisar o perfil e comportamento; e descobrir os interesses do aluno

Observar é fundamental, descobrir o que o aluno gosta e como ele se comporta diante de algumas situações é importante para o aprendizado. Com tais informações, você consegue direcionar as atividades partindo sempre do ponto de interesse do mesmo.

Para identificar o perfil do aluno você pode:

  • Conversar com a família e o professor do ano anterior, eles sempre indicam algum caminho;
  • Em disciplinas mais teóricas tente mostrar vídeos, imagens, trabalhar com jogos, globo, mapas etc.  Quando você consegue tornar mais interessante as aulas eles demonstram interesse e muitas vezes nos fornecem indicativos de como gostam e aprendem.

3º passo – Colocar em  prática o planejamento

Para ensinar crianças com autismo, ABA é usada como base para instruções intensivas e estruturadas em situações de um-para-um, embora ABA englobe muitas aplicações.

Alteramos o comportamento através  do condicionamento operante que “é o processo que usamos para ajudar a modificar ou trocar um comportamento que é indesejável, ou para reforçar um comportamento desejável” (Lear; p. 2-6; 2004)

Uma das aplicações utilizadas foi inspirada por Tentativas Discretas (Discrete Trial Teaching – DTT) que,

Tem um formato estruturado, comandado pelo professor, e caracteriza-se por dividir sequências complicadas de aprendizado em passos muito pequenos ou “discretos” (separados) ensinados um de cada vez durante uma série de “tentativas” (trials), junto com o reforçamento positivo (prêmios) e o grau de “ajuda” (prompting) que for necessário para que o objetivo seja alcançado. (LEAR P. 1-6; 2004).

A cada tentativa, proposta de atividade, por exemplo, se faz necessário estar atento ao “sinal” anterior, para que a “ação”, ou seja, o comportamento determine a consequência.

  1. Antecedente: Fazer a atividade;
  2. Comportamento: Aluno não quer fazer atividade, você dá a atividade e ele faz birra, joga tudo no chão;
  3. Consequência: Ele fica nervoso e não fará a atividade.

Agora, troque as condições sob as quais o comportamento acontece, ou o antecedente; e você mudará o comportamento e a consequência:

  1. Antecedente: Coloque na atividade algo que seja interesse do aluno e proponha a ele que após atividade vocês podem fazer algo do interesse dele (as vezes deixar ele andar no fundo da sala livre, pegar um jogo pedagógico, um livro etc, algo que você percebeu que é prazeroso para ele);
  2. Comportamento: Ele faz a atividade;
  3. Consequência: Ele fica calmo, faz atividade e recebe o estímulo positivo (fazer algo do interesse).

As análises e observações devem ser constantes no comportamento do aluno, como ele responde as propostas é um indicativo de como colocar em prática o planejamento ou se há necessidade de refazer estratégias. Por isso o trabalho é muito individualizado, e ABA trás isso, muitas vezes o que funciona para um é bem provável não funcionar da mesma maneira para outro.

Considerações da professora

A proposta pedagógica é desafiadora, pois demanda de um conhecimento prévio  sobre TEA e ABA. Uma vez que as atividades são planejadas individualmente, requer certo domínio sobre o assunto.

Além disso, dificilmente se consegue resultados sem um professor de apoio em sala. A presença deste profissional é indispensável para trabalhar os aspectos sociais e pedagógicos em parceria com o professor regente e demais alunos.  O professor regente dificilmente consegue realizar tantas intervenções efetivas sem um auxílio profissional capacitado, devido a sua demanda em sala.

O trabalho é muitas vezes desgastante, o que exige do professor muita dedicação e disposição.

É importante também preparar a sala, conversar com a turma sobre possíveis acontecimentos, pois sempre que houver um ocorrido fora dos padrões considerados “normais” a sala estará mais apta a lidar com a situação gerando menos agitação.

Os resultados obtidos utilizando-se da técnica de mudança comportamental são eficazes já que envolve um processo de aprendizagem ou reaprendizagem, e são utilizados no TEA para aumentar ou manter comportamentos, ou seja, trabalhar procedimentos de autocontrole e/ou interação social; ensinar  novas habilidades, funcionais, de comunicação ou interação; reduzir comportamentos de interferência, estereotipias, etc.

É importante na inclusão de alunos com autismo que o professor no decorrer das atividades propostas, faça observações antes, durante e depois, e que seja flexível ao currículo, pois pode haver alterações.

Organizar a rotina do aluno e utilizar  de outras ferramentas como: tecnologias, jogos, brincadeiras, atividades manuais, visuais e pinturas pode dar bons resultados. A partir daí você pode partir para os registros iniciais, por exemplo. Bons resultados não são só obtidos com atividades escritas.

Gostou do conteúdo?

Esse texto faz parte de um projeto aqui no Sílabe chamado Práticas Educacionais. Produzido pelo time do Sílabe e pela nossa rede, as Práticas levam para as mãos de professores de todo Brasil dicas de atividades, exercícios e metodologias para serem usadas dentro da sala de aula.

cadastre-se nas praticas educacionais

Referências

  1. LACERDA, Lucelmo. TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA: uma brevíssima introdução. Editora CRV, 2018.
  2. LEAR, Kathy. Ajude-nos a aprender: Um Programa de Treinamento em ABA (Análise do Comportamento Aplicada) em ritmo auto-estabelecido. Trad. Margarida Hofmann Windholz, 2004.
  3. MOREIRA, Márcio Borges; DE MEDEIROS, Carlos Augusto. Princípios básicos de análise do comportamento. Artmed Editora, 2009.
  4. SKINNER, Burrhus Frederic. Ciência e comportamento humano. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
  5. SKINNER, Burrhus Frederic. Sobre o behaviorismo. Presses Université Laval, 1974.