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CNV (Comunicação não-violenta): o que é, exemplos e como pôr em prática

Entenda como usar a Comunicação Não-Violenta para resolver situações de conflito e melhorar o ambiente da sua sala de aula.

Quando usar a Comunicação Não-Violenta

A escola é palco de inúmeros conflitos. É normal que haja atrito em ambientes com tantas pessoas convivendo. Mas o caso da escola é especial, pois a maioria das pessoas que a compõe está em processo de autoconstrução, desenvolvimento e descoberta. Isso significa que esse é um dos principais espaços nos quais elas irão aprender a se relacionar e a resolver os desentendimentos.

Apesar de nós, equipe escolar, querermos sempre resolver da maneira mais calma e justa os atritos, nem sempre conseguimos. Então, uma forma interessante de aumentar nossa equipe de ajuda é capacitar os próprios alunos na resolução respeitosa de conflitos.

Dentre as diversas situações de divergência, uma muito comum na sala de aula é o desentendimento, algumas vezes agressivo, entre os participantes de um trabalho em grupo, causando desordem e atrapalhando a dinâmica da aula.

Então, nós tomaremos esse cenário, que é comum a tantas disciplinas, e o utilizaremos para demonstrar a comunicação não-violenta na sala de aula.

Mas esta é apenas uma possibilidade de uso, depois de aplicar esse primeiro exemplo, deixe sua criatividade correr solta e conte pra gente como foi, quem sabe você não vira um exemplo das Práticas Educacionais?


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O que é a Comunicação Não-Violenta?

A comunicação não-violenta foi desenvolvida por Marshall Rosenberg com o objetivo de aumentar a qualidade nas comunicações.

Caso você não o conheça, Marshall Rosenberg é doutor em psicologia clínica, mediador internacional e fundador do Centro Internacional de Comunicação Não-Violenta.

Em seu livro “Comunicação não- violenta: Técnicas para aprimorar relacionamentos pessoais e profissionais”, Marshall explica que a CNV:

“(…) nos ajuda a nos ligarmos uns aos outros e a nós mesmos, possibilitando que nossa compaixão natural floresça. Ela nos guia no processo de reformular a maneira pela qual nos expressamos e escutamos os outros, mediante a concentração em quatro áreas: o que observamos, o que sentimos, do que necessitamos, e o que pedimos para enriquecer nossa vida”.

Além de uma abordagem de mediação, a CNV, se bem aplicada e com o tempo, consegue proporcionar mudanças na forma como as pessoas se organizam e em questões relacionadas a responsabilidade, diminuindo a chance de agressões ou dinâmicas de grupo opressoras.

Você pode estar achando agora que a CNV é impossível de ser aplicada numa escola, mas só para ter uma ideia ela foi usada inicialmente em projetos federais do governo dos EUA a fim de integrar de forma pacífica escolas e instituições públicas durante os anos 60.

Na CNV, quem fala precisa de ajuda para aprender, mas algo que às vezes deixamos passar batido é que quem ouve também precisa. Para Rosenberg, ouvir é uma atitude ativa.

Como colocar a Comunicação Não-Violenta em prática

O Papel da Fala

Antes do primeiro dia de trabalho em grupo, é necessário um aquecimento para que fique claro para os alunos como será feita a discussão das questões a partir de agora.

Para isso, usaremos os quatro passos para Comunicação Não-Violenta, desenvolvidos por Rosenberg:

  • Observação;
  • Sentimento;
  • Necessidade;
  • Pedido.

Observação

Primeiro o falante descreve a ação sobre a qual discutirá. Ele precisa ser bem objetivo e se fazer a pergunta “o que uma câmera registraria?”. Evite as palavra “sempre” e “nunca”, elas são muito subjetivas. Prefira números, como em “É a terceira vez que você não entrega sua parte do trabalho”, no lugar de “Você nunca faz sua parte do trabalho”.

Sentimento

O segundo passo é expressar como você se sente com aquele fato descrito. “Eu me sinto ignorado quando isso acontece.”

Necessidade

Todo sentimento surge de uma necessidade atendida (ou não), dessa forma o terceiro passo é sinalizar qual necessidade sua não está sendo atendida quando aquele fato ocorre. “Eu sinto a necessidade de organização para que eu não fique sobrecarregado com as tarefas.”

Pedido

E o último passo é fazer um pedido “eu gostaria que você fizesse as coisas conforme o combinado e se não puder fazer, pelo menos que avise o grupo para te darmos uma força.” Fácil, né?

Seguir esse esquema simples vai aumentar a qualidade da sua comunicação não só na sala de aula mas em todos os outros ambientes que você frequenta.

Escuta ativa

Lembra quando dissemos que Rosenberg falava que a escuta deve ser ativa? Então, chegamos na parte de trabalhá-la.

Quantas vezes enquanto a outra pessoa está falando nós estamos pensando que argumento vamos usar, ou que o modo como a pessoa fala te lembra aquela personagem da novela, ou até “quero tanto ir embora!”?

Então, apesar de nossos ouvidos estarem funcionando nesse momento, nós não estamos de fato ouvindo. Ouvir requer empatia, algo que discutiremos em outra oportunidade.

Mas o que você precisa saber para pôr esse exercício pra rodar é que enquanto a outra pessoa fala, nós precisamos tentar abaixar o volume dos nossos pensamentos para estar presente naquele momento com aquela pessoa.

E para exercitar isso, nós parafraseamos (palavra diferentona para “falarmos com as nossas próprias palavras”) o que a pessoa acabou de nos dizer.

Nós começamos com “Eu entendi que (…)” e mostramos para a outra pessoa que ela de fato foi ouvida, que nossos ouvidos não estavam ali só de enfeite 😀

Na situação do exemplo anterior, teríamos como resposta do outro participante:

  • Eu entendi que por três vezes eu não entreguei minha parte no trabalho. Entendi também que você se sente ignorado com isso, porque você tem a necessidade de manter a organização do trabalho. E você me pediu para que quando eu não puder fazer a minha parte eu peça ajuda para finalizar. Certo?
  • É isso sim =)

Comunicação Não-Violenta em trabalhos em grupo

Depois do primeiro exercício, os alunos já estarão mais familiarizados com o processo da fala respeitosa. Já poderemos passar para a prática durante os trabalhos em grupo.

Algumas informações deverão ser passadas para os alunos antes do início do trabalho. A primeira é que a partir de agora, toda vez que surgir uma divergência de pontos de vista que não esteja sendo resolvida, o processo da CNV será utilizado.

A segunda informação é de que o grupo todo deverá ficar atento para perceber a necessidade de recorrer ao exercício. Se dois ou mais alunos entrarem em uma discussão um pouco mais intrincada, eles mesmos ou os colegas poderão sugerir a CNV para que a comunicação fique mais clara.

Exemplo Prático de Comunicação Não-Violenta

Imagine que o trabalho proposto pela professora seja fazer a planta da casa de um dos alunos do grupo. A primeira decisão a ser tomada pelo grupo deverá ser a planta da casa de quem será a escolhida. Nesse momento, num grupo de quatro alunos, dois deles não abrem mão de terem suas casas escolhidas. A professora percebe o impasse e faz a intervenção.


Professora: meninos, o que vocês acham de tentar resolver com a CNV? Lucas, você começa. Fale diretamente para a Ana.

Lucas: Ana, eu quero que a gente faça a minha casa. [observação]

É importante que o aluno entenda as suas motivações, pois muitas vezes nem eles mesmos sabem porque estão disputando algo. A CNV traz essa possibilidade de autoanálise.

Lucas: Porque eu sinto vontade de ver a minha casa desenhada numa planta. [sentimento]

           Eu tenho a necessidade de me sentir parte do trabalho. [necessidade]

           Então eu peço que você deixe a minha casa ser a escolhida.

Professora: Ana, faça a escuta ativa.

Ana: Lucas, eu entendi que você quer que sua casa seja a escolhida porque você sente vontade de ver sua casa desenhada no papel. Você tem necessidade de me sentir parte do trabalho e por isso me pediu para eu deixar sua casa ser escolhida.

Professora: Isso. Agora sua vez, Ana.

Ana: A gente precisa escolher uma casa para fazer a planta. E eu quero que seja a minha. Porque eu tenho a necessidade de ser parte ativa no trabalho. E eu me sinto meio excluída dos trabalhos. Então eu queria que vocês escolhessem a minha casa.

Professora: Lucas, faça a escuta ativa.

Lucas: Você quer que a gente escolha a sua casa porque você quer fazer parte do trabalho e tem a necessidade de se sentir incluída.

Professora: Muito bem, grupo. Agora que vocês já se ouviram, tentem resolver essa situação.


Pode ser que a situação não se resolva, mas é normal, nem toda situação será facilmente resolvida. Mas o mais importante é que eles aprendam a falar de forma respeitosa e ouvir enquanto o outro fala.

Esse exemplo se passou numa aula de exatas (matemática), mas poderia ter sido em qualquer uma das outras áreas, porque a comunicação se refere a questões de relacionamento.

O que achou do conteúdo? Deixe um comentário aqui embaixo de como foi trabalhar CNV em sala de aula!


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Esse texto faz parte de um projeto aqui no Sílabe chamado Práticas Educacionais. Produzido pelo time do Sílabe e pelos professores da rede, as Práticas levam para o WhatsApp de professores de todo Brasil dicas práticas de atividades e metodologias para serem usadas dentro da sala de aula.


Referências

Sobre a Comunicação Não-Violenta

Como devem ser estruturados os processos de escuta nas escolas